quinta-feira, 26 de abril de 2012

Uma revista acabada


Realidade teve três fases.No fim de 1968, toda a equipe saiu. Alguns, como José Hamilton
Ribeiro, Luiz Fernando Mercadante, Myltainho não resistiram e voltaram para a segunda fase, em meados em meados de
1969. Era uma tentativa de recuperar os velhos tempos. Neste período, a tortura de presos políticos e a censura
corriam soltos, não se confiava em nenhum desconhecido. As cautelas nas matérias, eram muito maiores, embora nunca tivesse havido censura direta dentro daquela redação como existia nas outras. Havia denúncias contra gente que nunca tinha se envolvido em política, feitas apenas por vingança pessoal de alguns. É até possível, que em
alguma sala secreta, alguém lesse as cópias de matérias, já que o prazo de fechamento da revista mensal permitia.
Mesmo assim, encanto estava quebrado; a segunda fase da Revista Realidade
não deu certo. Em sua terceira fase, a empresa foi drástica. Reduziu o tamanho da revista e tentou implantar outra fórmula editorial, parecida com a da Seleções do Readers Digest.
A primeira fase, chamada fase áurea, é a que ficou para a História. Para alguns, a revista Realidade teve apenas esta, que durou até 1965. Nos primeiros tempos, Hamiltinho tinha preferência de ficar no Jornal da Tarde. Houve presença e a influência dos
dominicanos de São Paulo, em certos períodos. Houve influência também das mulheres. Em dezembro de 1968, depois de muitas brigas, tanto internamente como com a empresa, quase todos pedindo demissão. Alguns como José
Hamilton, Mercadante e etc., passaram uma temporada em redações como Veja e Jornal da Tarde, até o retorno que não deu certo. Dos fins de 1970 até 1972, as luzes de alguns andares do mesmo número da Rua João Adolfo voltariam a ficar acesas até altas horas da noite, onde um grupo de jornalistas já não tão jovens estava, de novo, muito ocupados em reformar o mundo. A revista fechou de vez em março de 1976.

por Raisa Carlos de Andrade e Fernanda Azevêdo

Realidade: uma transformação


São Paulo era calmaria entre Fuscas e Gordinis. Na década de 60, a nova editora, Abril, chegava junto com as minissaias, formulando um novo jornalismo, tão importante quanto as pernas de fora no Brasil e se aproximava muito mais dos leitores que viam uma certa afinidade em relação a vida e a nova linguagem.

Realidade foi o título escolhido diante das possibilidades da nova publicação, inovadora. O Google, que hoje salva os jornalistas, era impensável diante das antigas ligações mediadas por telefonistas. Ainda assim,  nas reuniões de pauta íntimas e invejáveis, regadas a todos os drinks do momento na casa de alguém da equipe, com a ausência da pressa, dessa angustia dos prazos de hoje, houve uma revolução no que diz respeito ao impresso.

A revista trazia o leitor ao jornalista num convívio maior que qualquer mídia social é capaz de atingir. Pela primeira vez, o Brasil consumia uma publicação para um público abrangente, o que fez com que em quatro meses as vendas subissem de 250 mil exemplares para 450 mil. Num misto de vaidade, orgulho e ansiedade pela crítica, os jornalistas conferiam de perto cada lançamento. Hábito que a Abril até tentou repetir, sem êxito em outras publicações. Do que aquele grupo de jornalistasde no máximo 30 anos ouvia, saía parte das próximas edições. 

Nada modesta, a equipe da Realidade via o sucesso como retorno da óbvia qualidade. Mostrava um olhar diferente sobre o mundo e a vida através da nova proposta. A revista levava em conta os vários lados da pauta, a liberdade que começava - e precisava  transparecer. Intercalava a tese e a antítese. Não havia pretensão de mudar o mundo ou de desafiar governos, mas influenciou diretamente na quebra de tabus, na transformação do pensamento da época. A temática priorizava assuntos permanentes, cavados com profundidade, sem o tom urgente do jornalismo habitual. A publicação também fugia do padrão na direção de arte e na fotografia. 

Ainda que os salários da imprensa da época não fossem os mais empolgantes, aquele grupo de jornalistas era bem remunerado, eram novos e estavam em alta, trabalhando com uma certa liberdade de criação. Enquanto os antigos se rendiam a outras profissões, dava-se novos rumos ao jornalismo, rumos ousados. Na realidade, os jovens eram cada vez mais ativos naquele prédio da Abril. 

Com  assinaturas como as de Sergio de Souza, Paulo Henrique Amorim, Woyle Guimarães, José Hamilton Ribeiro e outros tantos, a revista chegava às bancas mensalmente. Havia na equipe uma afinidade de propósitos e interesses. Nas reuniões de pauta discutiam se mostrariam o quanto a liberdade tinha sido arrancada pelo regime ou se seguiriam uma linha mais leve, de materias de entretenimento bem escritas. Normalmente misturavam os estilos. Nem todos tinham clareza sobre organizações políticas clandestina. Havia um mistério envolta da miltância. Ainda assim, politizados ou não, possuiam o interesse pelo bom jornalismo, que fosse, de alguma maneira, capaz de influenciar a sociedade. Cada edição se tornava ainda mais abrangente. Política, Educação, Moda, Religião, Esportes e Cultura dialogavam na paginação, sem se perder. 
A censura, embora não fosse explícita, era tratada com cautela. A empresa defendia o livre mercado e portanto, não concordaria com uma visão socialista da equipe. Quanto ao governo, não seria de bom tom provocá-lo e correr o risco de perder algo que seguia tão bem. Assim as matérias eram bem boladas, com alfinetadas indiretas ao regime e raciocínios afinados. A capa se relacionava com o conteúdo e fugia do padrão da beleza feminina das revistas semanais.
A Realidade via como necessidade se livrar das fórmulas antigas e atingir o leitor de uma outra maneira, criava um senso crítico. Para isso, o nível de exigência, criado pela própria equipe era elevado. Os repórteres tinham necessidade de certa privacidade e pela primeira vez, escreviam as matérias de casa. Até a escolha de um título era um cuidado a mais. Existia uma ligação visual entre textos, imagens, layout - técnica que hoje se repete em qualquer publicação. Na hora do fechamento, sem computador, tudo era feito com as próprias mãos. Legenda, legendinhas, títulos. Muitas vezes, o texto fugia da cabeça do reporter, que era salvo por alguém da própria redação. Este escrevia de acordo com o que ouvia de quem foi pra rua. Era explícito o processo por "texto de" ou "reportagem de". Quando era texto, o jornalista que assinava era responsável pelo texto e pela apuração. Na publicidade só entravam empresas privadas, quase que anulando a presença das estatais. Ética que surgia num período em que era comum uma série de jornais chanteagearem o governo para obter lucros. A revista por sí só já era suficientemente rentável.

Sem dinheiro do governo ou citá-lo diretamente, Realidade alcançou uma credibilidade muito maior, mas também foi acusada de representar uma invasão estrangeira na imprensa nacional. Todo o material publicado repercutia muito. A temática que hoje pode pode até parecer clichê, era altamente contestadora, com imagens fantásticas e reais. A fase durou até 1968, tempo suficiente para que a linha editorial se tornasse um padrão, um tema de estudos que chega aos dias de hoje.



por Raisa Carlos de Andrade e Fernanda Azevêdo

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Depoimento: Audálio Dantas

Nascido no interior de Alagoas, em 8 de julho de 1929, que é conterrâneo de Graciliano Ramos a quem é fã.
Em 1954, iniciou a carreira como repórter da Folha da Manhã - hoje Folha de S.Paulo -, passando em seguida pelas redações das revistas O Cruzeiro, onde foi redator e chefe de reportagem; Quatro Rodas, nas funções de editor de turismo e redator-chefe; Realidade, como redator e editor; Manchete, como chefe de redação; e Nova, como editor.
Entre vários trabalhos importantes que realizou como jornalista e escritor, se destaca o "Quarto de despejo", da favelada Carolina Maria de Jesus, que compilou do diário que ela escreveu e em 1960 lançou como livro, que já foi traduzido por 13 idiomas. Hoje se destaca também no sindicalismo e na política.

 
CMJ: Como foi essa novidade da Realidade?
Dantas: Acho que nas duas publicações houve uma sublimação  do texto.  Teve até discussão sobre isso. Muita gente confundia, via o  jornalismo literário como literatice, o texto enfeitadinho... não era isso. O  texto não precisa ser enfeitado, o texto precisa ter consistência, atrair o leitor, ter a importância, informar e atraindo pela qualidade da narrativa. A revista Realidade que  foi um projeto novo, vitorioso, uma revista de texto, de reportagem e, mais ainda, uma revista de autor. Foi a primeira publicação no Brasil que dizia publicação de autor. O sujeito escrevia a matéria, a matéria era dele. E apareciam alguns que não eram jornalistas  por profissão, no caso do Jorge Andrade, que era teatrólogo, o Roberto Freire, que morreu recentemente, que era médico, psicanalista, e esses faziam textos que fugiam aos padrões completamente. Agora nós, que éramos jornalistas, eu falo,  estavam o José Hamilton Ribeiro, o Carlos Azevedo, repórteres que estão aí, continuam escrevendo, José Carlos  Marão, Narciso Kalili, vários outros grandes jornalistas, nós vínhamos da escola anterior, como A Folha etc e tal.

Na Realidade, grandes matérias se fizeram, algumas, no meu ponto de vista, partiram para o exagero da criatividade, digamos assim. Mas havia matérias que eram verdadeiras subversões dos padrões do jornalismo tradicional etc. Uma delas que eu fiz chama "Povo caranguejo", pode-se dizer um texto quase teatral porque eu fiz um contratempo entre os personagens principais, que eram os caçadores e os caçados, os caranguejos. Mas  isso era, sei lá,  uma invenção, como você vai saber do caranquejo? Eu digo, você pode supor e pode ser constatado que o caranguejo sofre uma agressão ao ser caçado e ele deve ter as suas formas de reação, como tem. Por exemplo, como se caça caranguejo no mangue? O pescador vai, os caranguejos fogem para os buracos, ele tampa os buracos, um, dois, três, quatro e vai em frente. E os caranguejos ficam presos.  E por que ele que ele pega o caranquejo?  O caranquejo ficou na tentativa de sair, nessa busca, é bravo para o caranguejo. É fácil você imaginar isso. E muitos conseguem sair um pouco mas quando ele volta, ele vai pegando  porque os caranguejos estão cansados, alguns estão quase morrendo, aí fica fácil pegar. Senão, os caranguejos ferram com a mão dele.  Muitos, apesar deles, têm as mãos grossas das ferroadas dos caranguejos.  Enfim, o que era  o texto? A certa altura, o texto dizia: “Homem -  faz isso, isso, aquilo. Caranguejo, isso, isso, aquilo”. É isso, acho que não há nenhuma invenção nisso.

CCMJ: Fale um pouco sobre as grandes reportagens da Realidade.
Dantas: Muitos grandes assuntos, matérias que se podem ser consideradas antológicas, que foram feitas pela revista, o grande momento foram as edições especiais. A edição Amazônia, que foi feita pelo Raimundo Pereira. A Amazônia foi descoberta para a maioria do país naquela matéria. A revista inteira voltada para a Amazônia, com todas as suas contradições, todas as suas maravilhas da natureza, a exploração, já o problema da destruição, tudo isso. Depois, outras matérias especiais, edições especiais, algumas delas eu fiz. Fui editor na edição Nordeste e depois foi quase que totalmente sobre o Vale do São Francisco.  Porque uma das coisas que se devem lembrar dessa questão toda é que esse tipo de jornalismo feito nos anos 60, principalmente, era um tipo de jornalismo de investimento na matéria.  Que não se faz mais hoje, uma edição dessas da Amazônia levou um contingente imenso de repórteres  para todos os pontos da região, assim como Nordeste, meia redação da Realidade foi para Recife, montamos uma redação no Recife. Essas coisas são impensáveis hoje, e significava um investimento muito grande, em dinheiro, não só de tempo dos repórteres e tal, mas dinheiro. A redação ficou em um andar inteiro em um hotel no Recife, e depois transporte para todo o Nordeste, todo esse tipo de  coisa. (...)

CCMJ:Como essas pautas eram elaboradas na revista? Havia uma reunião, cada um trazia a sua ideia?
Dantas: Eram ideias dos repórteres, dos autores. Independentemente disso, nessas reuniões de pauta, as ideias eram muito discutidas. Não sou do grupo inicial, mas o grupo inicial virou quase uma máfia, uma gangue, se reunia, ficava dois, três dias reunidos para discutir a pauta, (...), veio funcionar muito nas grandes entrevistas do Pasquim. Fui um dos entrevistados do Pasquim e fiquei espantado para ver como eles conseguiam fazer depois a matéria. Era uma cumplicidade muito grande, uma coisa muito boa mesmo. Da mesma maneira, se discutiam os textos. Tinham coisas assim, quando eu trouxe o texto do caranguejo, acho que foi Miltainho disse: “É uma puta de uma reportagem...”  Era muito assim. Mas, se o cara tivesse alguma observação, ele faria (...). Quem fazia parte da equipe original da Realidade? É difícil lembrar de todos os nomes, mas você pode, logo de cara, lembrar de José Hamilton Ribeiro,   Sérgio de Souza, Miltainho [Mylton Severiano], José Carlos  Marão, Narciso Kalili, acho que já estava Roberto Freire, o Frei Betto, que escrevia alguns textos mas não era empregado. Paulo Patarra, que foi praticamente o inventor dessa coisa, e que morreu recentemente,  era um grande inventor de revista (...). A Realidade terminou com 400 mil e tantos exemplares, uma tiragem grande. Aí, houve uma dissidência, como houve também no O  Cruzeiro, vários saíram. Primeiro essa equipe, depois, em 1974, eu digo: “não dá mais...”. O projeto original estava desaparecendo.Fizeram uma revista mais rapidinha, ligeirinha, que o José Hamilton chamou de Realeções ou de Selenidades, essa comparação com a revista Seleções, aquela coisa utilitária, meio boba. E fui um dos que saíram. Quem era um dos editores da revista, era um dos donos da editora, filho do dono, que era o Roberto Civita. E nessa relação, o Roberto Civita, de certa forma, ao exercer a força do dono, muitas vezes, ele perdeu e aceitou.

CCMJ: Como era pressão dos militares sobre a diretoria, principalmente depois do AI-5?
Dantas: A Realidade fez trabalhos antológicos e que, na ocasião, mesmo antes de 68,  antes do AI-5, já eram considerados muito ousados. Algumas edições foram apreendidas inteiramente, como foi o caso da edição Mulher. Uma cena de parto era considerada imoral etc e tal.  Agora, a revista buscava fazer os temas e trazer, revelar coisas. O Eurico Andrade fez matérias importantes sobre a fome no Nordeste, o regime tinha todo interesse em evitar. Havia, não se pode negar isso, a autocensura do autor, do repórter. Ao escrever, me surpreendi várias vezes. Mas você procurava um modo, em uma situação como aquela, é lícito você procurar  modos de dizer as coisas, de contar. Uma das matérias que fiz para  a Realidade, chamada “Mortalidade infantil no Nordeste”, contava que morria uma criança a cada segundo, tantas crianças a cada minuto, coisa desse tipo. Fui acompanhar situações da Zona da Mata de Pernambuco, a região mais fértil do Estado, onde acontecia maior índice de mortalidade infantil. O paradoxo está aí, depois, peguei um caso – essa foi a segunda capa que perdi da Realidade – em que uma criança estava morrendo em um bairro miserável do Recife. Chegamos na casa, eu e o Luigi Manprin, um magnífico fotógrafo. O pai era cobrador de ônibus, não estava, a mãe estava com a criança. Tentaram levar para o hospital, não conseguiram, a criança morreu. Vão fazer o sepultamento, ficava longe do cemitério, não tinham recursos. O pai pegou o caixãozinho e ele, sozinho, levou ao cemitério. Acompanhamos isso. Chegamos no cemitério, antes do sepultamento, ele destampa o caixão, e o fotógrafo disse: “Olha, segura um pouco o caixão”. Segurou, então, está a cena dramática, terrível, do pai segurando o filho morto naquele caixão. Era uma foto muito, mas muito boa. A redação queria a capa, mas nós perdemos a capa. Não entrou mesmo, não entrou nada. O caranguejo ainda entrou na abertura da matéria lá dentro, mas a história estava contada. Mas, então, a relação da direção da revista Abril com os militares era difícil, como todos os casos das publicações e, no caso das revistas da Abril, da Realidade, eles mandavam para a censura. Não havia censor lá dentro. Mas havia uma espécie de intermediário entre a redação e a censura federal. Esse intermediário – um sujeito de dentro da editora nomeado para esse trabalho - era quem tentava botar uns panos quentes. Às vezes, ia e voltava com a matéria, que tinha que ser alterada.

CCMJ: Por que a Realidade acabou? 
Dantas: Essa pergunta, todo mundo faz. Mas quando digo que a Realidade morreu com 400 e tantos mil exemplares, aí foi uma decisão empresarial. Do ponto de vista capitalista, o capital empregado, o retorno. Do ponto de vista deles, o investimento não dá o retorno, talvez, sei lá, podia até estar dando prejuízo. E havia uma tendência em publicações segmentadas, já começava haver para vários assuntos, temas, dinheiro, jardinagem, enfim, um monte de coisa desse tipo. Acho que a Realidade desapareceu do ponto de  vista industrial. Ela  não resistiu. Acho que foi por aí. Várias tentativas de fazer uma revista como essa esbarram exatamente na questão do investimento. Não adianta dizer: Vamos fazer uma grande revista de reportagem se você não investe em reportagem (...)


Fonte: CCMJ - Centro de Cultura e Memória do Jornalismo

Educação nas Páginas da Realidade

No livro Realidade Re-Vista, José Carlos Marão e José Hamilton Ribeiro reproduzem algumas das melhores matérias da Revista Realidade. Antes de cada capítulo, que aborda um tema que era comum nas páginas da revista, os autores brindam seus leitores com uma pequena resenha sobre como aquele tema era tratado na publicação. Abaixo, segue a íntegra de uma dessas resenhas, a que trata das matérias referentes a educação na revista. O texto é do jornalista José Carlos Marão.

Crianças, Mestres: Um olhar no Futuro*



Realidade, em suas pautas, também se lembrou das crianças. Os jovens de todo o mundo, naquele tempo, procuravam formas de externar seus descontentamentos. Entravam para comunidades hippies, consumiam LSD ou aderiam a organizações socialistas para lutar por uma revolução que nem entendiam o que era. Quase todos acabavam no divã do psicanalista.

Para muitos, isso era consequencia de uma educação repressora: jovens reprimidos e infelizes procuravam válvulas de escape nem sempre as mais saudáveis. O debate sobre o assunto levantava, como possível causa, o ensino na pré-escola e nas escolas de primeiro grau. Citavam Freud, dizendo que as raízes do comportamento humano são lançadas nos primeiros anos de vida. Surgiam novas escolas, pelo mundo, com tendências que chegavam ao Brasil, como os métodos Montessori e Summerhill, do educador escocês A. S. Neill.

Realidade entrou nesse tema. A matéria de Carlos Azevedo e Norma Freire, na edição número de Realidade, deu um panorama completo do ensino fundamental no Brasil, discutindo a necessidade e a possibilidade da pré-escola no Brasil. Destacava uma experiência oficial – naqueles tempos o que hoje se cama de escola pública era chamada de escola oficial – no Colégio Experimental da Lapa. Azevedo e Norma contam que lá eram matriculadas crianças a partir dos três anos e meio, moradoras do próprio bairro e de todas as classes sociais. Mas as grandes experiências já eram feitas em escolas particulares: as duas escolas citadas na matéria já praticavam o método Monterssori – o Pequeno Príncipe e a Vera Cruz. Nas duas, as crianças “aprendiam fazendo”. O método mais polêmico, porém, era o de A. S. Neill, praticado na Inglaterra, na Escola Summerhill, nome que acabou sendo adotado para definir o próprio sistema de ensino.

Foi pra lá que Realidade enviou seu redator-chefe, Paulo Patarra. A matéria de Paulinho “Ninguém Manda nestas Crianças”, repercutiu até mais do que o livro de A. S. Neill, Liberdade sem medo, que já tinha sido editado no Brasil. O livro, de tiragem limitada, tinha chegado a um público mais especializado. A reportagem de Paulo Patarra, mostrando crianças totalmente livres, sem horários, sem rigidez disciplinar (e, apesar disso, com excelente aproveitamento escolar), atingiu uma grande camada da população, que reagiu ou escandalizada ou maravilhada. Está reproduzida nesse capítulo.

Paulo Patarra destacou algumas declarações de Neill, que chocaram (e ainda chocam) os mais conservadores: “Os pais e as escolas matam a liberdade, a iniciativa e a capacidade de criara das crianças. Eles dizem aos jovens como viver, o que pensar, no que acreditar, impondo um sem-número de tabus”. Realidade cumpria seu papel, levantado tudo o que poderia haver de novo ou revolucionário em educação. Eram tendências que só podiam ser absorvidas ou praticadas em determinadas faixas de renda ou informação.

Mas a revista não esquecia o mundo real, o que era feito naquela época. No Estado de São Paulo, pelo menos, havia escolas muito melhores que as de hoje em todos os níveis. A Secretaria de Educação dava atenção a todas as regiões e seguia tanto os parâmetros tradicionais, como permitia experiências com tendências renovadoras, como mostram duas matérias reproduzidas nesse capítulo.

A reportagem “Já Existe a Escola de Amanhã” mostra um colégio estadual, no interior, onde adolescentes já recebiam o que havia de mais evoluído para a época. Um modelo que acabou sendo seguido e aprimorado, mas somente por algumas escolas particulares. A matéria “Uma Aventura, a Professorinha”, reproduzia integralmente neste capítulo, mostra a dedicação de professores abnegados, que se esforçam para levar o ensino básico para as mais remotas regiões, onde o acesso era muito difícil e as comunicações inexistentes. Eles ganhavam pouco, mas os salários eram mais dignos que os de hoje. O Texto usou nomes fictícios para fatos e regiões reais: a ideia era homenagear todas as anônimas e heróicas professoras, com o exemplo da luta de uma delas.

*Originalmente publicado no livro Realidade Re-Vista, de José Carlos Marão e José Hamilton Ribeiro, nas páginas 330-332.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Viva Patarra!

Decidimos postar o texto do honroso Observatório da Imprensa logo após a morte de Paulo Patarra, um dos grandes nomes da Revista Realidade sem o qual ela provavelmente não seria formada. Paulo faleceu em 2008 e o texto foi postado pelo jornalista Carlos Azevedo, em 22 de janeiro do ano da morte do jornalista:


Paulo Patarra (74 anos, nascido 21/10/1933) acaba de ir embora fisicamente, mas ele já havia se despedido há algum tempo, ferido por doenças e por um esquecimento injustificado. Quero ficar com a melhor imagem dele, jovial, saltitante peso leve em seus 45 quilos e não mais que 1 metro e 60 de altura. Pequeno, magro, ágil, ligeiro nos movimentos e rápido como um raio no pensamento. Um líder de sorriso acolhedor, que não intimidava ao liderar, sempre abrindo espaço para todas as opiniões, paternal com os mais jovens.

Comunista sem verdades absolutas, mas fiel à estratégia de conquistar espaços para os interesses das pessoas do povo. Tático de movimentos habilidosos e fulminantes, capaz de mirar objetivos aparentemente inalcançáveis, e consegui-los. Fumante de tempo integral, daqueles que têm os dedos marcados pela nicotina. Pai de três filhos lindos, que conheci bem pequenos no apartamento de Vila Buarque, ao lado da sua ex-mulher Judith.

(...)

Seu trabalho principal era no jornal Última Hora, de Samuel Wainer, jornal popular, à esquerda dos jornalões das classes dominantes e que apoiava o governo de João Goulart. Era chefe de uma seção que chamavam copyright, uma central de coordenação e edição que despachava matérias para as edições regionais do UH.

(...)

Honra e dignidade

Golpe de mestre, de samurai! Roberto foi o diretor da revista Realidade e Paulo Patarra o chefe de redação. Não faltava dinheiro. Paulo levou toda a equipe que planejara montar, desenvolveu sua linha editorial de grandes reportagens de temas de atualidade. Levou as histórias do povo para dentro do jornalismo, priorizou os assuntos mais candentes na área de costumes, destacou a mulher, a liberdade sexual, o feminismo, o divórcio (que ainda era proibido no país), o comportamento da juventude, a música popular quando surgiam Roberto Carlos e Chico Buarque.

Já que vivíamos sob uma ditadura militar, Patarra buscou tratar de forma indireta os assuntos políticos. Era um mestre na arte de ir testando os limites da censura, de avançar e recuar conforme a tensão. Realidade foi o maior sucesso editorial da imprensa escrita do nosso jornalismo, teve as maiores tiragens e ficou para a História como a melhor revista de todos os tempos no país.

Paulo Patarra, arquiteto de revistas, condutor de equipes, teve ainda outros sucessos, como a criação do projeto de Vejinha, que sai encartada na revista Veja. Também protagonizou projetos na televisão, deu aulas em escolas de jornalismo. Mas sua obra máxima foi Realidade. E só por isso ele já está entre os grandes na História do jornalismo brasileiro. Exemplo para as novas gerações, para todos aqueles que quiserem fazer jornalismo com honra e dignidade, a favor do progresso da sociedade.

Claro que morreu pobre. Mas ainda tinha alguma coisa para nos dar: doou seu corpo para a Ciência.

O texto na íntegra pode ser encontrado com um clique aqui.
A foto do início do post veio de um tumblr sensacional com várias fotos de propagandas antigas! Visite: http://memoriaviva.tumblr.com/! Nada mais justo.

Professor Anônimo deixa Revista Realidade na Biblioteca da Facha

Pesquisando na biblioteca da Faculdades Integradas Hélio Alonso - FACHA - descobrimos que algum professor, pois não tem registro da entrada, deixou muitos exemplares da revista Realidade.
Estão todas com capa dura, de janeiro a dezembro de cada ano, todas juntas.
Uma grande descoberta para nós alunos de Comunicação que não tivemos acesso na época que foi editada.
Vale a pena dar uma confirida na Biblioteca da Facha.

Algumas capas:







terça-feira, 17 de abril de 2012

REALIDADE em livros - Entrevista: J. S. Faro, autor do livro “Revista Realidade, 1966-1968: tempo da reportagem na imprensa”

J. S. Faro, autor do livro “Revista Realidade, 1966-1968: tempo da reportagem na imprensa” deu entrevista para as alunas da FACHA Carolina Moota e Vanessa Oliveira, do blog "Virou Realidade". Veja abaixo a íntegra da entrevista.

J.S Faro fala sobre a Revista Realidade

Por CAROLINA MOTTA E VANESSA OLIVEIRA


Foto: Blog J.S.Faro
J.S.Faro é graduado em História pela Universidade de São Paulo (1973), mestrado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (1992) e doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (1996). Como leitor da Revista Realidade, decidiu escrever sua tese de doutorado sobre ela. Depois, publicou um livro sobre a Realidade, resultado de sua tese, chamado: “Revista Realidade, 1966-1968: tempo da reportagem na imprensa”.

"Fui leitor da revista e "apaixonado" pelas matérias que foram publicadas. ", conta Faro.


VR - Porque escrever um livro e ter como objeto de estudo a Revista Realidade?
FARO - O livro resultou de minha tese de doutorado apresentada em 1996 na USP. Sempre fui um estudioso do jornalismo brasileiro, em especial dos veículos que produziram textos investigativos, de grandes reportagens. Realidade me parece ter sido a experiência que levou mais longe essa proposta, daí meu interesse por ela. Portanto, mesmo antes de pensar no doutorado e no livro, fui leitor da revista e "apaixonado" pelas matérias que foram publicadas.

VR - E como foi escrever esse livro?
FARO - Escrever o trabalho todo foi uma experiência quase existencial porque tive que reler praticamente toda a revista naqueles três primeiros anos em que a estudei mais a fundo (1966-1968). Como minha adolescência acompanhou aquelas reportagens, fiz uma viagem no tempo. Mas foi também uma experiência de natureza conceitual porque a maturidade acadêmica me permitiu olhar todo o material a partir de uma perspectiva analítica nova, observar relações que um simples leitor não observa. Para falar a verdade, foi tão envolvente que o texto do trabalho fluiu como um depoimento da memória...


VR - A Revista Realidade mudou a imprensa brasileira?
FARO - Eu não diria que ela "mudou" a imprensa brasileira porque parte do que ela fez era herança de algumas experiências que eu procuro apontar no livro. O jornalismo investigativo já existia em outras revistas. O que Realidade fez foi dar a esse gênero uma nova dimensão temática (sintonizada com as grandes questões da época) e textual (inovando nas narrativas que faziam fronteira com técnicas literárias)


VR - Qual o significado cultural dessa revista?
FARO - O significado foi um aprofundamento da problematização das pautas junto à sociedade, em especial junto ao público leitor – formado também por segmentos de influência junto à opinião pública. Digo no livro que Realidade foi um catalisador das grandes questões comportamentais e culturais dos anos 60.


VR - O seu livro conta com um subtítulo, onde você cita “o tempo de reportagem na imprensa brasileira”. O que isso quer dizer?
FARO - Quero dizer que a força que a revista adquiriu no meio jornalístico fez com ela fosse considerada um parâmetro, talvez inaugurando uma ênfase nova no jornalismo investigativo...


VR - Qual a diferença do jornalismo daquela época para hoje em dia?
FARO - Vejo o jornalismo brasileiro hoje como uma experiência empobrecida pela simplificação que seus processos de produção acabam provocando, além das dificuldades econômicas vividas pela imprensa em geral. Por outro lado, a rapidez na circulação das informações e uma certa crise de leitura que acompanha esse processo, são fatores que desestimulam um jornalismo de profundidade...


VR - Hoje existiria a possibilidade de ter uma revista como a Revista Realidade?
FARO - Penso que sim porque a crise que eu apontei na questão anterior não me parece suficientemente forte a ponto de inviabilizar experiências semelhantes. Veja os exemplos da revista Brasileiros e da revista Piauí. São publicações que permitem a produção de matérias de fôlego onde a sensibilidade do repórter é maior do que a determinação meramente informativa.


Para saber mais sobre o Faro, clique aqui.
Ou visite o twitter: http://twitter.com/jsfaro

José Hamilton Ribeiro e a revista REALIDADE: documentário "O Príncipe dos Repórteres"



Documentário sobre o jornalista José Hamilton Ribeiro produzido por alunos do 5 período da FAESA, de Vitória (ES). Como repórter da revista Realidade, Zé Hamilton, como é conhecido, participou da cobertura da Guerra do Vietnã na década de 1960, quando perdeu a perna esquerda.

O vídeo foi feito pelas alunas Edsandra Carneiro, Sandra Sato e Marina Barreto, do Curso de Comunicação da Faesa, e orientado pela professora Emília Manente

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Enquete: Você já ouvir falar da Revista Realidade ?

A revista REALIDADE foi responsável pelo rompimento do jornalismo tradicional nas décadas de 60 e 70. Suas páginas tinham reportagens de grande riqueza informativa que impressionavam pelo aspecto literário e pela densidade em suas produções. Apesar de toda sua relevância histórica para o Jornalismo Brasileiro, muitas pessoas desconhecem sua existência, inclusive estudantes de Comunicação Social. A enquete abaixo comprova essa afirmação.

Você já ouviu falar da Revista Realidade?

"Não" (Marlon Moura, 23 anos, auxiliar de biblioteca da FACHA)

"Não" (Arlete de Oliveira, 47, atendente de biblioteca da FACHA)

"Não" (Ana Carolina Dias, 22, Jornalismo, 6º período)

"Não" (Caroline Lourenço, 19, Jornalismo, 2º período)

"Não" (Jackeline Nascimento, 43, Direito, 9º período)

"Sim. Inclusive tenho algumas edições da revista guardadas em casa. A revista Realidade em uma determinada fase fazia críticas ao período militar e depois passou a sofrer censura. É quando ela perde sua essência e passa a ser um periódico de 'faits divers'. Trata de assuntos entremeados, sem aquele enfoque crítico que a caracterizou no início". (Professor Nelson Romeiro, coordenador do curso de Publicidade)

"Não" (Sueli dos Santos, 55, auxiliar de serviços gerais)

"Sim. Jamais cheguei a ler a revista, mas já ouvi muito falar dela, sei da linha editorial ousada que adotava, apresentando matérias densas, muito detalhadas. É de grande importância e deve servir de referência para os estudante de Jornalismo de hoje em dia"
(Heleno Alves, 51, coordenador de Projeto Artístico do NAC)

"Sim. Certamente já ouvi falar, mas nunca tive a oportunidade de ler" (Marcelo Bastos, 62, Superintendente Administrativo)

"Não" (Érica de Souza, 28, auxiliar de secretaria e estudante de Turismo)

"Sim. Já ouvi dizer que é uma revista que fez muito sucesso da década de 70, abordava assuntos polêmicos, reportagens diferentes, é a grande referência do chamado Jornalismo Literário" (Cíntia Ladeira, 22, Jornalismo, 7º período)

"Não" (Rafaela Cascardo, 18, Jornalismo, 3º período)

"Não" (Márcio Christ, 50, coordenador de extensão)

"Não" (Berenice Maria, 52, auxiliar de serviços gerais)

"Não" (Pedro Travancas, 17, Relações Públicas, 1º período)

"Não" (Rachel Lopes, 21, Relações Públicas, 6º período)

"Não" (Rayan Gonçalves, 20, auxiliar de multimail)

"Sim. Meu pai era um ávido leitor da Revista Realidade. Demorava semanas para ler todas as reportagens e sempre dizia que ia guardar para lermos quando crescêssemos. Teve uma grande importância para a época e eu acredito que o tipo de jornalismo feito tenha que ser do conhecimento de todos que querem ingressar na área de Comunicação" (Rosemary Duarte, 51, Contadora)




Enquete realizada pelos alunos: Clara Paixão e Luiz Filhozzi

Matéria: "O homem brasileiro julga a sua mulher"

"Submissa, inculta, ciumenta, mesquinha? E até subdesenvolvida? Muitos dos trintas homens ouvidos por Rodolfo Konder acham tudo isso da mulher brasileira. Mas uma pesquisa encomendada por REALIDADE à Marplan revela julgamentos menos contundentes. Nem tão severo, nem tão indulgente, o escritor Laudelino Ballofin, num artigo bem-humorado, estabelece algumas verdades."

A pesquisa realizada pela Marplan, que consultou mais de 200 homens representativos da população masculina do país (daquela época), apresentou conclusões bem menos severas sobre as mulheres. O resultado mostrou que a cada 100 homens, 34 acham que a brasileira é, sobretudo, gentil, enquanto apenas 3 vêem no egoísmo a sua característica básica. 15% julgam generosa, 7% acredita que ela é submissa, 14% acusam de insegura, 4% de prepotente e 5 de ingênua. Mas, somente 1% dos homens foram capazes de defini-las como grosseiras.


O texto da matéria foi criado em cima dos resultados da pesquisa feita a pedido da própria Realidade. Eles fazem como se fosse um entrevistado, mas na verdade são as perguntas feitas para os homens com as suas respostas. A reportagem contém 9 páginas de texto e fotos, em baixo dos textos - quando à continuação - tem a palavra "segue" e na última página tem "fim".  A intenção da reportagem era mostrar como os homens viam as suas mulheres e de que maneira eles julgavam. Essa matéria foi a capa da revista de Fevereiro de 1970, no tempo em que as mulheres não eram tão visibilizadas.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Por dentro da Revista

A "Realidade" como já foi dito, tinha uma maneira diferente de montar matérias. Geralmente demorava-se vários meses para ter informações necessárias.
Os jornalistas tinham que ouvir e descobri todos os pontos envolvidos naquela matéria, dessa forma eles acabavam viajando muito e se informando profundamente no assunto.
Os fotógrafos eram ótimos, apesar de usarem “milhões” de rolos de filme – é naquela época ainda era filme – para ter algumas fotos usadas na edição.

A tradicional maneira de escrever a revista – hoje pouquíssimo usado – fazia total diferença para quem lia. Eles conseguiam transmitir sentimentos para os leitores, que se envolviam com a história ali lida. Sempre descrevendo detalhes do lugar onde tinha sido recolhido as informações ou de como foi recolher as informações.
Está maneira na qual estamos falando, hoje só vimos nos livros – quando os autores querem que a gente se sinta dentro da história –.


Na maioria das revistas que tive contato –
aproximadamente 13 exemplares – percebi muita publicidade. Propagandas elaboradas, com fotos e jingles bem interessantes.
Cada matéria de fato tinha mais ou menos umas 4 a 5 páginas, onde se encontrava textos, títulos, entre títulos e fotos. A sobrecapa – capa de trás – geralmente tinha propaganda de cigarro.

terça-feira, 3 de abril de 2012

"Não consigo imaginar a 'Realidade' hoje": conversamos com Milton Temer

Nossa busca por fontes que fizeram parte da revista Realidade continua. Na última aula, conversamos com o jornalista Milton Temer, cassado pelo golpe militar de 64, sub-chefe da Editora Abril no Rio de Janeiro, na época em que a revista Realidade nasceu.

“Não consigo imaginar a ‘Realidade’ hoje”, foi com essa confissão que ele começou sua conversa conosco, nos alertando para o grande desafio que seria, reconstruir, de certa forma, uma edição especial da revista.

Segundo Milton, a revista era como o Globo Repórter e chegou a vender 600 mil exemplares. O sucesso de vendas pode ser explicado por algumas razões, entre elas: a falta da televisão e impossibilidade do rádio cobrir o potencial da TV, o óculo do repórter que contava uma bela história com vínculo racional e sentimental e, talvez, antes de tudo, a atmosfera que serpenteava o mundo com movimentos de combate às repressões. Logo depois, a ditadura que congelou a mídia brasileira.

A “Realidade” é cheia de curiosidades. Fotógrafos gastavam rolos de filme para complementar uma única matéria; jornalistas “podiam gastar à vera” com viagens e compra de recursos que encaminhassem a construção de reportagens; a redação dava trabalho e era muito diferente das atuais, era repleta de provocações, xingamentos e desafios ao vivo. Tudo isso fazia a revista ser única. “Os caras estavam fazendo aquilo pela primeira vez. Se estivessem separados, eles nunca conseguiriam fazer daquela forma”, disse Temer.

A verdade é que a Realidade, como produto de uma época, cedeu ao tempo. Conforme aprendemos com Temer, a “’Realidade’ passou a ser ‘o que é possível’”. “O mundo vivia uma realidade diferente. Pensava em liberdade, havia vários movimentos. A Realidade era um produto desse mundo de reflexão. A utopia estava no botequim”, contou. “Não tinha ninguém de direita na redação (...) não existe jornal isento (...) seres humanos têm opinião sobre tudo. Existe jornalismo honesto”.

Após algumas horas de conversa sobre a revista e o jornalismo de algumas décadas atrás em contraste com o panorama atual, desencadeamos várias pautas que já estão em produção. Assim que estivermos com o arquivo editado, postaremos a entrevista na íntegra para todos os curiosos com a esperança de que seja uma fonte histórica, que forneça um pouco de coragem em prol do jornalismo pensante. Fica combinado!


Por Estephano Sant' Anna