domingo, 27 de maio de 2012

O dia em que a Realidade não foi às bancas



Em janeiro de 1967, a Revista Realidade lançava uma edição especial: "A mulher brasileira, hoje".



Durante a reunião de pauta que definiria a edição de número 10, os editores resolveram que todos os assuntos seriam direcionados à elas - às mulheres daquela época. A revista iria "respirar" a mulher.


Foram seis meses de reportagens e uma pesquisa encomendada a um dos institutos mais importantes da época, o Inese.

Tudo pronto.
Era chegada a hora do número 10 ir às bancas.
E foi aí que o inesperado aconteceu.


Poucas horas depois da distribuição de metade dos exemplares, a revista começou a ser recolhida por viaturas do serviço de vigilância e ronda especial da polícia, com apoio da Delegacia de Costumes de São Paulo. Os exemplares que ainda restavam na gráfica também foram confiscados e, em seguida, destruídos.
A justificativa, segundo o juíz de menores Artur de Oliveira Costa, era de que a revista continha assuntos que ofendiam a moral e os bons costumes da época.
No Rio de Janeiro, a mesma situação. Exemplares recolhidos e a mesma resposta da justiça.

A reportagem "Nasceu", com texto de Narciso Kalili e fotografia de Cláudia Andujar, foi a que incomodou especialmente o cardeal-arcebispo Dom Agnelo Rossi e as autoridades locais de São Paulo. Em uma das fotos, uma grávida, momentos antes do parto. Pernas afastadas e a cabecinha do bebê apontando. O ângulo era polêmico e os editores sabiam disso. Civita insistiu na publicação. A tentativa de pôr a foto entre duas páginas não fez efeito. E a edição especial virou edição de colecionador.

Quem conseguiu vender escondido, chegou a cobrar um preço até cinco vezes maior que o da revista (800 cruzeiros).
Advogados da Editora Abril tentaram mudar o quadro, impetrando mandados de segurança em São Paulo e no Rio. O parecer favorável veio tarde, em 1968, pouco antes da decretação do AI-5 e quase dois anos depois da edição número 10 tentar ir às bancas.

Houveram muitos prejuízos para a Abril.
Mas apesar disso, a revista tornou-se mais forte e ainda mais querida para seus leitores.

Prova disso é que por duas vezes a Revista Veja, inspirada pela Realidade de 1967, lançou o tema "Mulher" em edições especiais nos anos de 1994 e em 2010.
Em ambas a mesma pesquisa feita anos atrás, mas agora com novas respostas, que retratam a mudança de comportamento das mulheres ao longo dessas quatro décadas.












Em sequência: Revista Realidade, edição especial de 1967 - Revista Veja, edição especial de 1994 - Revista Veja, edição especial de 2010






Por Isadora de Menezes

3 comentários:

  1. Isadora, eu tive uma coleção quase completa da revista Realidade até 2002, inclusive com essa edição apreendida, ela era da minha tia e me foi dada de presente, mas como precisei me mudar para o exterior e não tinha com quem guardar, acabei vendendo, junto com outras coleções completas de revistas...
    A edição era sensacional !

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  2. Comprei neste mês a edição nº 10, que foi uma reimpressão original desta Realidade, sem as fotos polêmicas. A original chegam a pedir quase R$ 200, esta que comprei me custou R$ 38. Tenho os 120 números corridos até março de 1967 revista já em formato pequeno, um dia pretendo comprar esta original. Abraços Zeca (RS)

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  3. "Houveram prejuízos"? "À elas"? Bora melhorar esse português aí, gente! Jornalistas ou estudantes de jornalismo cometendo esses erros básicos... É só revisar antes!!

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